2010's
2022
“É sempre indagação. É sempre busca” (uma entrevista com Maria Bonomi)

Nascida em uma aldeia localizada às margens do Lago Maggiore, nas proximidades de Milão, Itália, em 8 de julho de 1935, e emigrada para o Brasil em 1946, Maria Bonomi já fez de tudo, ou quase, no campo das artes visuais: desenho, pintura, gravura, escultura, cenografia e muito mais, de pequenas ilustrações para livros de poesias a grandes cenários para o teatro, de gravuras intimistas a intervenções monumentais no espaço público, como o enorme painel de três metros de altura por 73 metros de comprimento na Estação Luz do Metrô de São Paulo. Em todos esses trabalhos, como disse, foi a linguagem da gravura que a orientou: a linha, o sulco, a construção do espaço a partir de elementos simples.

Em 2014, quando estava com 80 anos, ela me concedeu, em seu grande ateliê, esta entrevista, que foi publicada na Agência FAPESP. Meu colega e amigo Phelipe Janning estava junto, gravando um vídeo, e participou da conversa com intervenções inteligentes. Reproduzo a entrevista aqui, na íntegra.

*

Você é uma artista em plena vitalidade criativa. Sua obra não está concluída; continua sendo feita. Mas, aos 80 anos, você tem o direito de olhar para trás. Que sentido ou sentidos você percebe ao recapitular a trajetória percorrida?

É uma pergunta muito forte. Eu não gosto de olhar para trás, porque viraria estátua de sal. Tenho a obrigação de rever as obras anteriores. E cada uma vem plena, com toda razão de ser que teve no momento de sua criação. Isso já é bastante. Então, ainda não comecei a olhar para trás. Talvez comece algum dia, seguindo o seu conselho. Avaliações também não são possíveis. O que existe é o grande aprendizado. Como você disse, minha obra não está feita, está se fazendo. Sobrou pouco tempo para que se faça. Há mais tempo para trás do que para frente, a menos que ocorra algum milagre da ciência. Então, o fato de ter pouco tempo me mantém em uma busca permanente para completar. Nisso, sim, entra o olhar para trás. Tal obra ficou de certa maneira, mas poderia ter ficado de outra: isso me impulsiona a retomar o tema. Esse movimento é o aprendizado, a soma. Espero que eu tenha vitalidade para ir até o ponto de conclusão. Mas o ponto de conclusão vai estar do outro lado da ponte. O ponto de conclusão não existe como conhecimento. É sempre indagação. É sempre busca.

Mesmo assim, você percebe linhas de força ao longo de toda a sua produção?

Sim. O que eu faço é uma espécie de relato. O relato do vivido, o relato do percebido, o relato daquilo que me atinge. Eu tento conviver com o que está acontecendo e traduzir essa convivência em termos visuais. Para isso, existem, é claro, vários modos de expressão: existe a obra pública, existe a obra intimista. Eu ilustro essa experiência de vida. Há um caminho. Mas, como diz o provérbio, o caminho se faz ao caminhar. Ele é recorrente apenas como experiência. O que eu aprendi ontem estou usando hoje. E estou aprendendo hoje aquilo que usarei amanhã.

Você é neta do comendador Giuseppe Martinelli, cujo nome está associado à história da cidade de São Paulo, pela coragem de ter construído nas décadas de 1920-1930 aquele que foi durante um tempo o arranha-céu mais alto da América Latina, com 30 andares. Que lembranças você tem desse avô materno?

Por causa do provincianismo da cidade, da incompreensão da população, que achava perigoso subir tão alto, ele teve que vender o prédio em 1939. Ficou magoado com São Paulo e mudou-se para o Rio de Janeiro. Ele perdeu o prédio, mas não perdeu o sonho, o sonho da América. Tanto que, no Rio, construiu outros oito edifícios, todos com quase 20 andares. Antes, em 1917, havia fundado a companhia de navegação Lloyd Nacional. Eu o conheci em 1945, quando cheguei ao Brasil, com 10 anos de idade. Meus pais vieram para São Paulo e eu fiquei morando com ele no Rio. Ele morreu cerca de um ano mais tarde. Mas, antes disso, veio comigo a São Paulo. Viemos de trem, descemos na Estação da Luz, e pegamos um táxi. Lembro que ele disse ao motorista: “Não passe pela Badaró”. Não queria transitar pela rua Líbero Badaró para não avistar o prédio. Era o desgosto por uma obra feita. Já eu tenho desgosto por obras não feitas.

No seu período de formação, você teve aulas, no Brasil, com três grandes artistas: Yolanda Mohalyi (1909 – 1978), Karl Plattner (1919 – 1986) e Lívio Abramo (1903 – 1993). Qual foi, para você, o legado mais importante de cada um deles?

O Karl Plattner me marcou pela questão da matéria. Ele me ensinou muita coisa sobre o uso dos materiais, os efeitos possíveis, os truques técnicos. Com ele, eu me tornei, em termos técnicos, praticamente uma pintora do renascimento italiano. Ao mesmo tempo, em termos formais, ele me mostrou a possibilidade, muito moderna, de destruir a imagem natural para geometrizá-la. A Yolanda Mohalyi era uma alma fantástica, uma pintora solene, de primeira linha. Ela me ensinou a delicadeza do encontro das cores, a suavidade da infusão das cores umas nas outras, a espacialidade das cores, tudo o que se podia obter com a cor por meio da aquarela, do óleo. Fiquei no ateliê dela por muito tempo. O Plattner foi a estrutura, a Mohalyi foi a importância do detalhe. Mas Lívio Abramo foi o encontro maior. Primeiro, eu conheci a obra dele; depois, a pessoa. Os dois encontros foram difíceis, mas muito apaixonantes. A obra dele me atraiu pela concisão, pelo rigor, pela essência. O Lívio trabalhava só com a linha, o branco e o preto. E isso trazia para o primeiro plano a linguagem do sulco, do traço, reduzido às mínimas consequências. Tudo muito simplificado e, ao mesmo tempo, magnífico, compondo catedrais de luz, de formas. Sua atitude me marcou muito. Até hoje eu convivo com as questões que ele apresentou. São as questões básicas que constituem a gravura: o traço, a matriz, o branco, o preto, cortar, sentir a resistência da madeira, abrir um espaço. Eu sofri muito com ele: logo de início, ele me fez passar três meses apenas lixando madeira, para eu entender com o que estava lidando. E por aí foi.

Então foi Lívio que a encaminhou para a gravura? Pois você poderia ter ido também para a pintura, a partir das influências de Plattner e de Mohalyi.

Sim, eu vinha do desenho, da pintura. Na Terceira Bienal apresentei pinturas. De repente, entro na exposição do Lívio e digo para mim mesma: é isto, está tudo aqui. E, nessa época, o Lívio nem era reconhecido como o grande artista que, de fato, foi. Ele era visto apenas como um gravador, entre outros gravadores.

Outras influências posteriores, que você reconhece e valoriza, foram as de Enrico Prampolini (1894 – 1956) e de Emilio Vedova (1919 – 2006), com quem você trabalhou quando retornou à Itália. Em termos políticos, artísticos, existenciais, Prampolini e Vedova são duas opções quase antagônicas. Como você conseguiu conciliá-las?

O Prampolini tinha uma grande experiência com o que é chamado na Itália de polimaterismo, que é a utilização de materiais diversos na produção da obra de arte. Ele se dedicava na época à cenografia. Trabalhei com ele em Roma em 1952…

Já era um Prampolini bem posterior ao da fase futurista…

Sim, mas com resquícios ainda muito fortes do futurismo. Ele fazia cenários que, em grande medida, ainda eram futuristas. Como todos os grandes artistas europeus, ele tinha assistentes. E eu, que era muito jovem, entrei no bolo. Trabalhei com ele em cenários e, juntos, fizemos até escavações perto de Roma. Ele me marcou muito também pela questão italiana. Em 1952, a Itália ainda estava vivendo o clima do pós-guerra. Apesar de ter nascido lá, eu não tinha tido contato com a cultura italiana. E o Prampolini foi um dos que me abriu essa porta.

Ele e Vedova eram muito divergentes…

Completamente díspares. O Vedova participou da Bienal de São Paulo e recebeu um prêmio aqui. E eu fui escolhida como uma de suas assistentes. Trabalhei com ele em Berlim, para onde ele foi com uma bolsa de estudos. Era completamente diferente do Prampolini: seu método era o antimétodo. Era o traço livre, a explosão do gesto, a explosão da tinta. E essa arte explosiva, imediata, era informada por uma visão política radical. Com ele, era o caos, mas um caos ordenado. Depois trabalhei com ele também em Veneza, onde ele tinha um estúdio dentro de uma catedral que havia sido esvaziada das imagens dos santos e das funções religiosas. Eu trabalhava com jovens de vários países, alemães, eslavos. Foi um período muito intenso.

Nessa época, você já tinha a consciência de que precisava integrar essas influências tão divergentes ou só estava interessada em viver o momento?

Eu desenhava, pintava, meu trabalho estava acontecendo nesses contextos. Mas eu não tinha a ideia de integrar. Não era um ato deliberado. A integração acontecia espontaneamente. Eu estava respirando e aprendi a respirar mais fundo.

Depois você foi para os Estados Unidos, onde estudou com Seong Moy (1921 – 2013). Ele foi sua porta de entrada para a cultura chinesa ou você se aproximou da China por outros caminhos?

A situação no Brasil estava um pouco parada. Então, eu consegui uma bolsa para trabalhar com o Seong Moy em Nova York. Nessa altura, eu já estava concentradíssima na xilogravura, não pensava em outras coisas. E o Seong Moy era considerado o grande mestre da xilogravura. Foi ele que me levou para os grandes formatos, para a cor, para as sobreposições de cores, para as transparências, todo esse virtuosismo da gravura tradicional chinesa. Ele era um contemporâneo, é claro, muito livre em relação à gravura mais convencional que se fazia na universidade – na Columbia University, por exemplo. Mas era também o herdeiro de uma tradição ancestral, muito ligado ao gestual chinês. Ele me abriu, sim, a porta da China. Porém o fez enquanto presença, enquanto sensibilidade, enquanto sugestão de percepção. Ensinou-me a perceber certas questões que constituem a visão oriental – muito diferente de nossa visão de origem europeia. Nesse sentido, houve também a influência do Sugai [o artista japonês Kumi Sugai (1919 – 1996)]. Eu me embuti de todas essas influências e de muitas outras. Elas me abriram portas. Eu passei por elas e continuei.

Mais tarde, você esteve pela primeira vez na China, em meados dos anos 1970, não foi?

Sim, foi em 1974. Participei do primeiro grupo de brasileiros que visitou o país, a convite do governo chinês. Foi uma viagem muito interessante, que se estendeu por 40 dias. Conheci muitos lugares e, a certa altura, comecei a ficar nervosa, porque não conseguia ver gravuras. Só tinha aquelas gravuras políticas, encomendadas pelo Partido, pelo Estado. Eu sabia que existiam dois gravadores autônomos, o Wu Biduan (nascido em 1926) e o Gu Yuan (1919 – 1996), mas não conseguia ter acesso a eles. Então, fiz uma greve de fome em um cemitério, porque queria conhecê-los. Para me acalmar, nossos cicerones me levaram a um grande ateliê de gravura. Porém aquilo foi pior, porque lá trabalhavam profissionais especializados, em temas especializados, mas eles não eram autores, não havia autoria, a ideia de autoria era até mesmo condenada. Eu insisti. E nossos cicerones acabaram conseguindo que eu tivesse um encontro com Biduan e Gu Yuan. Na época, eles eram meio proibidos; hoje, são considerados protótipos da atual escola de gravura chinesa.

Eles são referências agora.

Existe até um grande instituto em Beijing dedicado a um deles. E há, no país, uma intensa produção de gravuras, com ênfase na autoria. Visitei recentemente o ateliê de gravuras de Guanlan, que é hoje um dos maiores do mundo, com uma fantástica residência artística internacional. Eles me pediram para selecionar e convidar alguns artistas brasileiros para estagiar lá. Já foram alguns. É a recuperação de uma tradição, porque a gravura surgiu, na China, no século X. Mas a xilografia já não é feita lá da maneira tradicional. É feita de uma maneira mais moderna, inclusive com o uso de prensas. Eu aprendi a técnica de impressão deles e mostrei a eles o meu sistema.

Voltando aos anos 1970, você assumiu na época um posicionamento importante contra a Ditadura Civil-Militar, criou a série Balada do Terror, e chegou a ser presa e interrogada no DOI-CODI. Fale desse engajamento.

Era impossível ser a favor da Ditadura ou manter-se indiferente, porque havia um cerceamento muito grande, um tolhimento da liberdade de expressão, um cala-boca insuportável. Eu teria sido contra qualquer tipo de domínio como aquele. Mas foi uma atuação de retaguarda. Muitos amigos estavam sendo presos e nos empenhamos em cuidar de seus filhos. Além disso, eu participava de um ateliê de gravura junto com o Lívio Abramo. Ele era um trotskista e passamos a produzir panfletos e cartazes no ateliê. Aquele período foi um divisor de águas: ou você estava de um lado ou do outro.

Foi nesse contexto que você amadureceu a ideia da arte pública ou ela já vinha de antes?

Ela aconteceu naquele momento, mas a ideia da arte pública sempre me acompanhou, porque decorre da questão da tiragem da gravura. A gravura é uma forma de arte voltada para a multiplicação. Você produz várias cópias da mesma matriz, enumera, e vende ou distribui. Porém, apesar disso, o público atingido é sempre pequeno. Então, naquele momento, em que tantas obras arquitetônicas estavam sendo feitas, obras em grandes escalas, eu achava que havia uma falta de contato, de convívio, de comunhão com a arte. E pensei que, indo para os grandes espaços, estaria interagindo com o transeunte. A pessoa que passasse por ali poderia se intrigar e ser tocada de alguma maneira. De certo modo, essa reflexão era decorrência da própria técnica da gravura, era um impulso no sentido de ampliar o público. Questões extremamente ligadas à linguagem da gravura foram para o espaço público: eu produzi o sulco nas grandes paredes de concreto. Ao mesmo tempo, novas questões, relacionadas com a grande escala, foram acrescentadas: era preciso considerar quantas pessoas transitariam pelo local, em que condição de iluminação ocorreria o maior fluxo, e assim por diante. Foram experiências muito interessantes.

Como foi a primeira experiência?

Foi até uma brincadeira com o Artigas [o arquiteto João Batista Vilanova Artigas (1915 — 1985). Ele me disse: “Maria, você precisa ir para as paredes”. E colou uma gravura minha em uma das paredes do prédio da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo]. Sem saber, ele me deu a dica. Pois eu pensei: “Por que não transformar a própria parede em gravura?”. E essa ideia amadureceu na minha mente. Havia no período arquitetos muito arrojados que me chamaram. E ainda não existia esta febre imobiliária. Hoje, eu entro nesses prédios enormes e vejo os saguões vazios, com revestimentos de mármore, de granito, de vidro belga, quando poderiam ser trabalhados por obras de arte modificadoras do transeunte. Porque a arte pública transforma: a pessoa passa, vê aquilo e se questiona de alguma maneira.

Você tem exemplos da reação do público?

Tenho. Alguns são exemplos até divertidos. Há pouco tempo, uma senhora me telefonou e disse: “Você sabia que pintaram de verde o seu painel que fica no prédio da esquina da Paulista com a Bela Cintra?”. Eu respondi: “Sabia. Fui eu mesma que pintei”. É um painel bastante simples, que está lá desde 1975. Com o tempo, o concreto ficou um pouco ruim. O pessoal do prédio me chamou para discutir o tratamento a ser dado. Percebi que o entorno tinha mudado: as árvores, que eram pequeninhas na época em que o painel foi feito, haviam crescido. Então, resolvi pintar de verde os sulcos, que, antes, eram cinzas. Foi uma forma de reinserir o painel no contexto. E essa senhora, que morava em frente, me telefonou, achando que alguém havia mutilado a obra. Este é um caso. Existem vários outros.

Há aquele painel enorme na Estação Luz do Metrô de São Paulo…

Tem três metros de altura por 73 metros de comprimento. Há uma história interessante associada a esse painel. Minha avó materna morreu na Gripe Espanhola – acho que em 1908. O camburão passou e levou o corpo. Isso aconteceu com muitas pessoas mortas no período. Ninguém sabe o lugar em que ela foi enterrada. Então, em uma faixa do painel, baseada em uma fotografia, eu fiz um retrato da minha avó. Ela agora está lá.

Você disse que a arte pública transforma quem a vê. Como ela transformou sua própria obra?

É uma pergunta interessante. Eu fui até onde pude com o papel, em tamanhos maiores. A arte pública me deu a possibilidade da ampliação, de ampliar cada vez mais, incorporar questões quase estruturais da obra arquitetônica em minha própria obra.

Como essa obra monumental convive com seus trabalhos mais intimistas?

Toda obra gigantesca começa com uma maquete pequena. Quando eu faço uma maquete, quando eu faço um desenho, isso é um trabalho intimista. É claro que há todo um conhecimento acumulado. A obra grande não é a mera ampliação da pequena. Muitas questões da grande escala já foram consideradas e resolvidas mentalmente antes da maquete.

Você teve muito contato com duas grandes escritoras: Clarice Lispector (1920 – 1977) e Cecília Meireles (1901 – 1964). Como foi essa interação?

Eu e a Clarice éramos muito amigas. Eu a conheci ainda em Washington. Nunca ilustrei nenhum trabalho dela. Mas havia entre nós uma grande proximidade, ao ponto de uma incorporar coisas da outra. Ela até começou a pintar, e dizia, brincando, que gravava as minhas obras e eu escrevia os livros dela. Com Cecília foi diferente. Fui convidada para ilustrar um livro infantil que ela estava escrevendo: Ou isto ou aquilo. Foi, na verdade, o último livro que ela escreveu. Ela já estava em São Paulo em tratamento. Escrevia as poesias no hospital e me enviava. E eu lhe levava as gravuras correspondentes, para que ela as visse, comentasse, criticasse. Eu me transportava ao mundo infantil das poesias que recebia e ela me devolvia seu comentário entusiasmado. Foi uma interação muito rica. Ela era uma poeta fantástica e se divertiu muito com esse vaivém. Por isso, eu digo que as artes transformam. A pessoa é transformada por aquilo que vê, que ouve, que toca.

Há uma enorme diferença de escala entre a página de um livro e a parede de uma estação de metrô. Você já fez praticamente de tudo no campo das artes visuais…

Fui respondendo aos acontecimentos, aos convites, às propostas. E me aperfeiçoei tecnicamente, contando também com colaboradores. Fiz cenários e figurinos, que são coisas bem naturalistas. Depois, fui convidada a produzir obras de maior durabilidade. Então, o papel já não interessava, e precisei ir para suportes como o alumínio, o cobre, o latão. Mas sempre é o sulco, a linha, o espaço escavado que mandam. As questões da gravura se expandem nessas obras. Eu me considero gravadora mesmo quando estou fazendo uma obra de cenografia ou dentro de um espaço de grandes dimensões, onde a luz é determinante. Já trabalhei em madeira, em gesso, em argila, em qualquer suporte onde possa criar uma relação espacial amorosa.

Como é o seu dia-a-dia? Você tem uma rotina de trabalho?

Eu não tenho rotina. Não olho para trás e não tenho rotina. Meu ideal é não parar de trabalhar. Quando estou com a ideia de algum trabalho na cabeça, não consigo fazer nenhuma outra coisa direito, nem escovar os dentes. Começo a elaborar uma imagem e fico colada naquilo. Há uma inversão: já não sou eu que busco a obra; é a obra que me busca. Este é o meu processo mais íntimo.

E o tempo de criação varia muito…

Varia muito. Não há um tempo preestabelecido. Agora, existem as encomendas, com seus prazos. Eu me dou bem com isso. Não tenho nenhum orgulho de dizer que não faço obra de encomenda. Faço, sim. Se Mozart fez, por que eu não deveria fazer? Mas sou sempre eu mesma naquilo que faço. E é isso que o cliente que me procura quer. Ele não quer que eu seja outra pessoa. Quer que eu seja eu mesma.


Postado por José Tadeu Arantes em 14 de junho de 2022

https://josetadeuarantes.wordpress.com/2022/06/14/5107/

2020's
Maria Bonomi
The engraved matrix of the woodblock print is the keystone of Maria Bonomi’s practice as a printmaker and sculptor. Bonomi left Italy in 1944 and settled with her family in São Paulo in 1946. She started training in painting and drawing in Brazil, but thanks to her family's intellectual prestige, she also collaborated with renowned painters of the European avant-garde, including Emilio Vedova and Enrico Prampolini. Her commitment to printmaking matured in 1952 thanks to modernist Livio Abramo, with whom she also founded the experimental Estúdio Gravura (printmaking studio), active from 1960. Bonomi's artistic style transitioned from figurative to geometric abstract, aligning with the tendencies of the Brazilian avant-garde in the 1950s. Over time, she developed a more corporeal and sculptural approach printmaking through technical experimentation, using multiple matrices (up to one hundred for a single print) in various scales and materials. In addition to being an artist and an educator, Bonomi has also been a unionist and activist.
To deepen her knowledge of woodblock printing in the 1960s and 1970s, Bonomi trained at the Pratt Institute with Seong Moy. She also travelled to Japan and Maoist China, and studied the techniques practiced in the Amazon. Pedra Robat (1974) is part of a series made in the period after these transformative journeys. Departing from conventional woodblock printing methods, she used two unusually large and heavy wooden matrices. These were engraved using techniques inspired by jade stone carvings she observed in Beijing, which were the product of skills honed across generations of stonecutters. The print is achieved by layering each matrix's impression. The result is not typically hard-edged. Instead, it seems to vibrate with kinetic energy, a distinctive characteristic of the artist's printmaking style. Crucial elements of the work are the woodblocks exhibited at the print's base. Her endless research on the engraved surface led Bonomi to elaborate the vision for an "expanded woodcut", turning matrices into monumental sculptural installations for public commissions.

Sofia Gotti
60ª Bienal Internacional de Veneza
20/04 a 28/11/2024
2011
Unceasing Creation
Engraving is born from a technique, one of the most beautiful techniques in the visual arts, and one of the most ethical ones. Its ethics is based on two fundamental factors. 

The first is that of the exigency demanded by the material, the instruments, the precision of the gesture that involves manual force. On various occasions Maria Bonomi has told about the imperatives that Lívio Abramo, one of her teachers, imposed on her training: familiarity with the gouges, chisels and burins; with the brayers; with the resistance and the seductions of the printing blocks. The hand should learn. 

But the brain, for its turn, had to anticipate the result. Once the printing block is ready, what the paper receives from it, and later reveals, always holds a surprise. At this moment, the progression of the artistic process is interrupted. A decisive rupture takes place. And it is only at the end of this ephemeral and amorous meeting between print block and paper that the latter receives the marks of the ink, and a final, definitive work emerges. 

Creation and execution, cleverness and skill therefore go hand-in-hand in an inseparable dialectic, blended within a single flow. Without one of these terms, engraving would not exist. Thus, due to these intrinsic, rigorous characteristics, the engraver’s practice prevents any easiness in the artistic process, hindering it. 

The second fundamental aspect involves engraving’s social nature. As a multiple, it questions the precious and irreplaceable original. It is at the same time unique and numerous. Ubiquitous, it spreads to various places, without losing its identity. It yields itself at the same time to many gazes, in many places. 

There are therefore two ethics: one artisanal, the other social. Maria Bonomi’s trajectory has relied on an unwavering fidelity to both. The artist is not content to work on the print blocks with precision and rigor, but follows all of the processes, until the final printing, in a meticulous control. Nor is she content to sit back and tranquilly watch the world’s problems: she has denounced, and continues to denounce, the social injustices, the political abuses. This power of conviction spreads to her art and is always present in it, sometimes evident, sometimes infiltrated in the pure creative gesture. 

Intensity is one of her work’s most characteristic features. It stems from conflicts that are resolved in tension. 

In a recent interview the artist stated: “It is the conflict of the material with the idea. You know that an unforeseen factor can be introduced in the work, insofar as you already have something in mind. And this could take place or not. The engraving, as a result, refers to the visible world, perceptible by the retina – and also by touch. But as a concept, as an idea, it is concluded entirely within our mind. With this, I am almost arriving at the point of saying that there is a mental printing block and there is a realized one. By way of technique, we transpose to a third support a materiality which was mental, which was a truth of ours, which was an image prior to the one that was made. Therefore, making an engraving is, before all else, to have a graphic idea. And to possess graphic values, prior to their materiality. That is, engraving can even be considered immaterial, and not necessarily engraving.” 

This immateriality, however, lies as much in the idea as in the gesture. From thence comes the seriousness, the manual and mental rigor of engraving. However, from thence also comes the principal that the engraving is situated far beyond the technique. “Engraving is a universe,” Maria Bonomi has said. 
 

In Maria Bonomi’s art the social vocation is expanded, just as the artisanal principles are also expanded. Nothing there is small. The engraver’s incisive gesture, the groove she traces, the void that is imposed to the wood, the shapes she cuts, are always monumental and tend toward the unlimited. The formidable formal structures that Maria Bonomi conceives are in the small image (which can be enlarged many times if wished, since it always sustains and holds the same power), as well as in the huge panels she has created for public places. What is in the smaller work is also in the larger one, and to consider her works in scale is to understand this epic art superficially. 

*

Maria Bonomi aptly formulated  that the engraving artist falls into an exercise of limitation “if he/she does not take hold of the exercise of the idea system and attitude intrinsic to engraving: the bold investigative possibility it holds, which can be mined infinitely. Everything else is agonizing.” 
 
There is the implicit idea here that engraving is a universe. Cutting, carving, extracting, marking and grooving – this is the core of this practice. From this, the great engraver advances: the print on the paper is enlarged, it becomes giant: the paper can be substituted by the cement that becomes the receptor of these impressions. The metal is cut, remodeled, transforming into a kind of engraving-sculpture. Polyester, glass, mirrors, ceramic tiles, soft-drink cans, bottles, a meaningful photograph – everything fuels her inventions.  
The idea of public art, which is so dear to Maria Bonomi, presupposes a public investment, a public space, a collective energy. This energy is furnished by architects, landscapers, urbanists, engineers, workers, and unexpected collaborators who are all crucial for the elaboration of the work. 

In the large panel created for the Luz Subway and CPTM Station (São Paulo), Maria Bonomi incorporated marks of things that had been lost for years and found (precisely as at an archaeological site) while the transformation of the place was underway: memories of old neglected ghosts. But many other objects brought by a wide range of people were also added. The cement preserved marks and forms: in the concave void, the nest of collaboration and memory. 

*

Maria Bonomi’s act of engraving is made of ties, links, and passages, which do not respect and cannot be pigeonholed in definitions of artistic genre. The word ponte [bridge] (the title of one of her recent works) aptly expresses the idea of a crossing-over between borders that would otherwise be inaccessible. We find the primordial character of this art between the forms printed on paper and those on the huge wall, between the carvings in wood and those in cement, between the surface and the relief, between engraving and public art. 

Thus, in Maria Bonomi’s work, engraving never signifies only a technique. The artist actually creates a continuously expanding universe. In it, everything is interconnected, everything responds and is supported. It exists thanks to the artist’s formidable inventive power. 

Everything arises from an ample feeling. It has always been that way. It’s not just the difference in size among the works that is largely insignificant. Their positions on the timeline are also insignificant, compared to the powerful creative unity they arise from and to which they pertain. It is enough to look at the impressive illustrations for Raul Bopp’s Cobra Norato, with its clear domains for the ink, for the void, for the structure: who would ever imagine that these powerful, mature works were made by Maria Bonomi when she was 11 years old? And her work Paisagem urbana de São Paulo [Urban Landscape of São Paulo], made when she was 17 (at which time a critic wrote “a lovely view of São Paulo, by the gentle young lady Maria Bonomi”), reveals in impressive sense of solid and lively construction. 

The essence was already there, in those first works. Lina Bo Bardi used the expression metagenesis, referring to the creative power arising from transformations, which characterizes Maria Bonomi. The engraver herself has stated that she always does the same thing, and that when she does the same thing, something new always emerges. Just as the small is in the large, and yesterday is in today. 

In the dazzling fertility of her creation, one work often gives rise to others. This uninterrupted and fecund process has a very current example: it is present in Ponte [Bridge]. This large woodcut is inspiring the Águas sólidas [Solid Waters], light metallic and transparent metallic units, still incomplete in the full sense, but fully under development. Another beautiful phrase by Maria Bonomi, that seems to describe her work so well: “I do not believe that reality has a beginning and end…” 


There is an evident feeling of amplitude, both in Maria Bonomi’s manner of being as well as in her works. She works in a very careful way, but the result transcends the details. There are great artists who work on small surfaces, creating worlds that are simultaneously reduced and infinite: Klee was like that, to cite a name that Maria Bonomi has mentioned among those she admires. Others, on the other hand, need to expand in the vastness of the epopee. 

The energy that animates Maria Bonomi does not drive her toward gestuality, toward vehement splotches, toward tracks of ink on paper. In woodcut she has her chosen medium (she has stated that engraving “is born ‘within’ the wood; not ‘on’ the paper. Wood is receptive, it contains the energy.”). Woodcut imposes discipline. Her practice channels the gesture toward the structure. 

This combines with the prevailing spirit in Maria Bonomi’s works – a spirit distrustful of the random and the disordered. The powerful energy is directed toward the search for a personal and throbbing geometry. Vibrating thanks to the impulses and effervescences of creation, the visual rigor leads to a result that always contains something of the heroic. 

A powerful aesthetic sense delves to the essence of the forms, and organizes them with intense clarity, conferring them an undeniable authority. Such an art could never remain confined to the paper, which can expand to a certain size, but never to a huge panel. 

The long shafts that incline, cross and rest on one 
another, which she created in 1976 for the Mãe do Salvador (Cruz Torta) Church in São Paulo, her first public work, fall within the universe of engraving. The parallel grooves that seek a tense and geometric dynamics, in the panel for the Esporte Clube Sírio; or the magnificent undulating path in the lobby of the Hotel Maksud Plaza, in São Paulo; or the surfaces she created for the subway and for Luz Station; all of her monumental works pertain to the galaxy of engraving. This universe also contains her installations: the symbolic poetry of Sobre a essência: 7 horizontes do Homem [Concerning the Essence: 7 Horizons of Man]; the moving rivulet of reflections, made of fragmented mirrors, which composes the path of the marvelous Passagem pela imagem [Passage through the Image]. 

In every way, the public destiny of Maria Bonomi’s works is marked. For a simple reason: her works instate the space that surrounds them, they define the place where they are installed. They impose their environment. They metamorphose the space where they are located. They create the very atmosphere that involves them. They expand in an aura. This is due to the fact that in them, everything is essential. All pleasant or ornamental details were banned, to reach the austere fullness of a powerful and decisive form. 


The present show is the most complete exhibition ever held concerning Maria Bonomi’s art. It features a large number of works, not so much to trace a chronological path (even though much of her early production is present, including various works being shown for the first time), but rather to reveal the permanence of her concerns and the links that connect them. 

It should be pointed out, however, that her important creations in the scenography field have not been included, for lack of space. This is certainly the largest gap. It is also true that, because of their specific character, and due to the rarity of the known documents, they require detailed researches and studies, yet to be carried out. We hope that, in the future, a careful exhibition on this theme – Maria Bonomi and the theater – will be held. 

In our conception (I say the plural “our” not out of authorial modesty, but with the feeling that it stems from a team effort), the exhibition is divided in the following way. 

One room is devoted to monumental art. In it, there are video monitors showing photos of works which, for obvious reasons, could not be moved. In this same room there are some admirable printing blocks, true works of art in their own right. 

The upper circular room (that we have christened the “uterus”), features creations which, in some way, possess a “feminine” character. 

The lower circular room (the “dungeon”) contains the production related to the artist’s political convictions. 

The large room (the “panorama”) reveals the artist’s essential love for woodcut, the central technique in her artistic path, along with her incursions into drawing, lithograph and oil painting.  

Maria Bonomi has made some engravings in various versions, with variations above all in the coloring. I insisted on showing all of these versions, since the chromatic variants are the incarnations of one and the same work. The set of these metempsychoses forms an urban-work, which is beyond the tangible realm, and in which all its manifestations participate. They are fragmented effects of a transcendent whole that they form in conjunction, and which surpasses them. 

The impact of a series exhibited in sequence is enormous, even more so when accompanied by the printing block (which participates in this original transcendence, as a generator, but also as a mode in sculptural relief, of the form that was printed). In this light, if we were to present only one engraving extracted from the series, we would be providing a sampling, not the complete work. 

Finally, in the outdoor spaces, there are some installations and sculptures. 

Here I wish to acknowledge the staff of Nu Design (especially Julio Mariutti, Daniel Sene and Rodrigo Brancher) who took the guiding conceptions for this show and transformed them into solutions for the exhibition: with this show, the young team had an excellent occasion for acquiring experience and exercising their inventiveness. I would also like to underscore the coordination and production of Lena Peres Oliveira, the true locomotive of the project, without whom it would never have achieved success. Above all, and finally, I would like to acknowledge the constant and illuminating presence of Maria Bonomi. 

 
Jorge Coli, 2011
Curator
Bonomi: Amongst the Engraving and the Public Art